Futurólogo – Um dia no cotidiano de 2280

Um dia no cotidiano de 2280

 Rui Santo*

Você acorda e vai “escovar os dentes” cujas cerdas são sensores emocionais, combinados com a visão astrológica.

As cerdas identificam e enviam sinais para uma central, que reenvia direto para sua mesa virtual, os alimentos necessários e na quantidade exata para equilibrar emocionalmente o seu dia, conforme você programou.

Com o advento da transferência de matéria não há sobras de alimentos e os objetos materiais – armários, fogões, mesas, geladeiras, estoques, casas, carros – agora existem apenas virtualmente. Tudo é virtual.

Toma o “café da manhã” e vai trabalhar, isto é, muda de ambiente no mesmo lugar. Pega seu “controle pessoal celular” que recebeu ao nascer e ao apertar o único botão do controle, pela identificação digital sintonizada com sua mente e o que você está pensando, projeta na parede virtual desse ambiente a tela de um computador e outra tela pequena a sua frente, como um teclado para digitar, que foi sua opção entre falar, pensar  e digitar.

            “Trabalha” atendendo os compromissos solicitados pelo seu contratante temporário e pelos clientes de outras dimensões, aqui mesmo, no planeta terra.

Esse trabalho exige a instalação na mente de um chip especial, relacionado com o aperfeiçoamento de seu conhecimento profissional e em função de sua capacidade cognitiva (e /ou física) ampliada.

É um provocador de sinapses mentais para respostas adequadas aos clientes.

            Mais tarde sai para fazer alguns trabalhos externos, nos órgãos do governo que ainda se mantém 200 anos atrasados, isto é, as instalações existem fisicamente como lembrança do século XX, mas como a transferência de matéria ainda não consegue transferir seres vivos, você prefere ir pela rede aérea, invisível para os demais.

–          Oh Rui! Só falta precisar carimbar com tinta azul escuro e reconhecer firma nos documentos, não é?

Quando sai do órgão público no fim da tarde, resolve ficar por ali mesmo. Aciona seu “controle pessoal celular” trazendo sua “casa virtual” para onde está ao invés de pegar transporte e todo o movimento de pessoas que preferem voltar para o mesmo lugar de onde vieram.

Na verdade, ninguém tem mais endereço físico como conhecemos até o século XX. Temos apenas endereço eletrônico e GPS. Aonde formos nossa “casa virtual” estará a um aperto de botão do seu intransferível “controle pessoal celular” que sabe tudo sobre você e só funciona com você. Essa revolução foi causada pela formulação matemática de Einstein: E = mc2, isto é, tudo que era matéria, desmaterializou-se e agora é só energia. Assim, cada um pode dar a forma que preferir a energia, isto é, sua própria moda, decoração, design, casa, carro, etc. tudo virtual, embora pareça, ilusoriamente, material.

             – Oh Rui, será que os vírus, na hora da transferência, não vão colocar a cama virtual no chuveiro, se é que vamos precisar tomar banho e com que água?

             Na cozinha na hora de jantar você chama sua mulher que surge em uma tela que é a própria parede lateral, e ela senta do outro lado da mesa, na “casa virtual” dela, mas é como se estivessem na mesma mesa que você está agora.

Enquanto conversam, na outra parede, digo na outra tela, seu clone, isto é, seu filho o chama.

            Você conversa com ele e com sua mulher como se estivessem todos juntos na mesma mesa, embora cada um esteja distante do outro, algumas centenas de quilômetros. No canto da tela, há um mapa GPS indicativo de onde cada um está, as características climáticas do lugar naquele instante, a saúde pelo DNA, a foto kirlian, o horóscopo diário, o I Ching, o estado de humor, o estado emocional e os campos energéticos dos que aparecem na tela (você escolheu o que deve aparecer entre as 1.200 opções!!!).

Os noticiários neton-line (você dispõe de mais de 290, simultaneamente), e mais os programas que você escolheu, aparecem espalhados nas diversas e pequenas telas que contornam a tela central. Sua cognição se desenvolveu em tal nível nos últimos 30 anos, que você pode assistir três a quatro programas simultaneamente.

            A filha do casal – clone de sua mulher – aparece na hora do jantar em outra tela de parede inteira e pede a mãe alguma coisa que esta solicita ao sistema de transferência de matéria, apertando aquele único botão, e mandando que seja entregue, on-line, no endereço eletrônico + GPS, onde está a filha de sua mulher.

Os quatro (o pai com seu clone – filho com a mulher e com a clone – filha dela)[1] conversam como se estivessem juntos na mesma mesa, até que o filho resolve ir fazer alguma outra coisa, saindo da conexão.

Num dia “Tempo Net” programado, já que o calendário e o conceito de “mês, semana e fim de semana” acabaram, combinam uma posição “GPS – primavera” para se encontrarem fisicamente e escolhem a “casa virtual” de quem vão ficar em função da estação do ano no local para onde vão. O mais votado deve levar seu “controle pessoal celular” para transferir sua casa para esse ponto GPS e receber todos.

Depois de dois dias de encontro, cada um volta para seus endereços GPS, mas a filha – clone resolve ficar mais perto da mãe por uns dias.

O consumo foi desmaterializado completamente como condição para salvação do planeta. Há um excesso de alternativas virtuais gratuitas e os baixíssimos impostos pagos sustentam os cursos públicos para desenvolvimento da cognição e motivação nos quais participam os que se “desguiaram“.

O mundo mudou muito nos últimos 280 anos.

Os valores transferiram-se do “fazer” na revolução industrial, para oter” que quase destruiu a terra no ano 2000, e agora em 2280 os valores transferiram-se para o “ser” como a melhor forma de dar sustentação à população e preservar o ambiente para todos.

A mudança moral do “ter” para o “ser”, transformou os valores de propriedade em valores de conhecimento, criatividade e intuição, emoções e relacionamentos em detrimento de objetos materiais que praticamente deixaram de existir, exceto nos museus de história do tempo.

Agora todos têm disposição para tudo que quiserem, já que aquele tempo consumido em trabalho para o “ter” pode ser eliminado e preenchido com esforços prazerosos para o “ser”.

Um valor extraordinário para o desenvolvimento e elevação do espírito humano, baseando-se nas novas descobertas e compreensão de estar de passagem na dimensão conhecida como “vida”, na qual, “malas pesadas tiram o prazer de caminhar”.

            – Vamos dormir – diz o pai para a mãe, durante o encontro real.

            – É Rui, pelo jeito, certas coisas vão demorar mais para mudar… Ainda bem!!!

O futuro pode estar difícil de ser profetizado, mas pode ser fácil de ser “reconstruído”.

Criativos, vamos contribuir?

 CRIA = ATIVA + A + MENTE,

 

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Galáxia Criativa, 2003. 

 

Rui Santo. 


[1] Essa foi uma decisão da humanidade: cada um cria clones de si mesmo e não da junção de um homem com uma mulher naquele tal de casamento que existia no sec. XX. Tal decisão está criando um grande e novo problema. O avanço do ser humano parou nas cognições que existiam, já que todos querem ter seu clone aos 25 anos. Uma solução está sendo discutida no universo: clone de si mesmo somente após os 65 anos, já que a população vive até os 105 anos, como único jeito de avançar cognitivamente uma vez que se pressupõe que aos 65 anos todos evoluíram mentalmente

 

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