Conceitos Práticos e Segredos

Criatividade e produção de ideias é um tema de fronteira desde Heráclito que viveu faz 2500 anos, pertencendo inicialmente à filosofia e depois se espraiando para o campo das artes. Durante o Renascimento a capacidade criativa ganhou uma qualificação específica, um adjetivo para diferenciá-la da capacidade racional dos indivíduos. O conceito de “gênio” vem do Séc. XVI, para se explicar os poderes de criação de Leonardo da Vinci, Vasari e Telésio. Desde então a genialidade passou a ser qualificação da capacidade criativa, mantendo-se o nível de inteligência para a qualificação da capacidade racional.

Atualmente, definições de criatividade se encontram em variados segmentos como um modo de estimular sua prática pelos profissionais da área. É desconhecido um segmento que independa de novas ideias, motivo pelo qual, em cada um se produzem definições que lhe sejam mais assertivas e benéficas.

Aqui são apresentados alguns conceitos e definições facilmente encontradas nos estudos sobre o tema, embora não sejam os únicos. Com o tempo, mais definições serão acrescidas a esta lista.

E aproveite para conhecer definições que oferecem Chaves do Cofre onde estão guardados alguns Segredos Práticos para o sucesso da criatividade.

– Heráclito – há 2500 anos – Filósofo.

Heráclito [1], filósofo grego que viveu há 2500 anos na cidade estado de Éfeso, é tido como o Primeiro Professor de Criatividade da humanidade, contribuindo através de epigramas[2].

Heráclito sugere a criatividade como a atitude mais adequada para viver no mundo.

Para encontrar respostas, não tendo ao quê nem a quem recorrer uma vez que não foi discípulo de ninguém, desenvolveu o hábito de prestar atenção à realidade à sua volta. Então pensava até apreender o significado, consultando sua intuição, quando então, ao trazer as epigramas, dizia: pesquisei dentro de mim mesmo. As epigramas criadas por ele inspiraram vários filósofos como Platão e Aristóteles, Goethe, Hegel e Ernst Cassirer mais recentemente. Entre outras epigramas de Heráclito, Von Oech menciona:

– Uma maravilhosa harmonia é criada quando juntamos o aparentemente desconexo.

– O espírito criativo é tão profundo que você nunca lhe conhecerá os limites, mesmo seguindo todos os seus rastros.

– Devemos entender o propósito que guia todas as coisas através de todas as coisas.

– A oposição traz beneficio [3].

– Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Tudo flui.

Com essas epigramas, Heráclito despertava o pensamento criador em seus seguidores, e ainda hoje, desperta em nós o pensamento criativo.

– Lao Tse – há 2500 anos – Contemporâneo de Heráclito e Confúcio – Filósofos.

Desenvolveu técnicas que evitam a estagnação do pensamento, gerando movimento (produção de sinapses) para torna-lo mais criativo. Para agitar a mente, Lao Tse sugere: “Aprenda a ver as coisas de trás para diante, de dentro para fora e de cabeça para baixo”. Certamente essas “técnicas agitadoras da cognição” levam a novos resultados, despertam para novas ideias. O artista plástico Kadinsky desenvolveu sua arte quando certo dia, indo para o ateliê, viu um quadro de cabeça para baixo!

– Platão e Aristóteles – há aprox. 2350 anos – Filósofos.

Platão e Aristóteles foram os primeiros a estudarem e reconhecerem a força e o valor da associação de ideias, propondo técnicas para fazer circular o pensamento tornando-o gerador de mais ideias, tirando-o do estado de estagnação, as quais foram assim denominadas:

  • Contiguidade, significando proximidade, imediação, sequencia de ideias usadas, por exemplo, em causa e efeito.
  • Semelhança, significando similaridade, analogia entre ideias, usado em metáforas.
  • Contraste, significando antônimo, contrário, inversão, ideias opostas, valorizado em ironias e humor.

Essas três leis estão entre as primeiras ferramentas para se variar o pensamento, associando ideias à medida que estas circulam entre si como uma facilitação que estimula a produção de alternativas, saindo do hábito de pensar igual, quando a mente está presa dentro da caixa. Frente a uma questão, na primeira fase atenta-se para as causas que produziram o efeito. Para variar o pensamento, buscam-se situações de semelhança dentro da mesma área de conhecimento ou em qualquer outra onde seja possível identificar fatores comuns e soluções praticadas. Utilizar metáforas contribui para o distanciamento mental, soltando o pensamento em campo aberto. Na terceira fase as ideias concentram-se no sentido contrário, isto é, oposto, avesso.

René Descartes – Sec. XVII – Filósofo.

Para René Descartes [4] o individuo criativo é uma pessoa saudável com intuição desenvolvida. A noção de mente separada do corpo, o dualismo cartesiano, considerava que as ideias eram inatas e que vinham da alma através de um dom que lhe teria sido dada.

Emanuel Kant –Sec. XVIII – Filósofo.

Emanuel Kant [5] fala de criatividade como um processo natural que criava suas próprias regras, a qual considerava imprevisível, concluindo que a criatividade não podia ser ensinada formalmente. Posteriormente, Kant reviu esse postulado, indicando que tal tipo de ensinamento devia ser mantido escondido da racionalidade. A utilização de fontes de originalidade e espontaneidade que organizam esses elementos na educação requer um talento de modo que seu emprego possa vencer os julgamentos da racionalidade acadêmica.

Charles Darwin (1859)- Biólogo.

Segundo Darwin [6], na Teoria da Evolução a criatividade seria uma manifestação da força criadora inerente à vida. Os impulsos criativos são direcionados à inovação e ordenação que se manifestam em todas as áreas da vida, e que provêm do instinto exploratório comum a todos os seres vivos. É um instinto biológico tão básico como o sexo e a fome, pois é uma reação inerente aos desafios naturais que ajudam na sobrevivência da espécie. No homem, por sua consciência e inteligência, os impulsos criativos envolvem também a conservação da vitalidade cognitiva, que se caracteriza dinamicamente pelos intercâmbios com o meio ambiente.

A criatividade é um potencial; a criação, o produto.

Edmund Husserl (1906) – Filósofo, Matemático e Lógico

Husserl, fundador da fenomenologia, desenvolveu a redução eidética ou redução fenomenológica. Trata-se da redução da ideia aos seus elementos essenciais (do grego, eidos, que significa ideia ou essência) para se encontrar seu verdadeiro significado. O filtro dos sentidos não permite que a consciência acesse as coisas como realmente são. A realidade criada na consciência, não é suficiente – ao contrário: os vários atos da consciência  precisam ser conhecidas nas suas essências, aquelas essências que a experiência de consciência de um indivíduo deverá ter em comum com experiências semelhantes nos outros.  Por exemplo, posso observar um triângulo maior, outro menor, outro de lados iguais, ou desiguais. Esses detalhes da observação – elementos empíricos – precisam ser deixados de lado a fim de encontrar a essência da ideia de triângulo – do objeto ideal que é o triângulo – que é tratar-se de uma figura de três lados no mesmo plano. Essa redução à essência, ao triângulo como um objeto ideal, é a redução eidética.

O “Invariante” do triângulo é aquilo que estará em todos os triângulos, e não vai variar de um triângulo para outro. A figura que tiver unicamente três lados em um mesmo plano, não será outra coisa, será um triângulo. Não podemos acreditar cegamente naquilo que o mundo nos oferece. No mundo, as essências estão acrescidas de acidentes enganosos. Por isso, é preciso fazer variar imaginariamente os pontos de vista sobre a essência para fazer aparecer o invariante.

Desde os ensinamentos de Platão a filosofia nos diz que, por influência dos sentidos (a construção das ideias que o homem tem em sua mente se faz por informação dos sentidos, como dito por Locke) existem várias imagens possíveis de  um objeto, porém todas elas significando a mesma coisa, ou seja, todas elas redutíveis ao mesmo significado, todas se referindo ao mesmo objeto ideal, contendo a mesma ideia, constituídas da mesma essência.

Alfred North Whitehead (1929) – Matemático e Filósofo

Segundo Whitehead [5]  a criatividade é uma expressão universal imanente a tudo que existe caracteristicamente rítmica, isto é, estão continuamente produzindo entes, experiências, situações sem quaisquer precedentes, ou cíclica – tudo precisa se renovar para continuar existindo. O mundo constitui-se de entidades reais que nascem, se desenvolvem e morrem, afirma Whitehead.

A criatividade rítmica avança para o novo enquanto a criatividade cíclica mantém o que já existe. O conhecimento como fato consumado torna-o inerte e limita a curiosidade natural dos alunos na escola.

Para desenvolver a imaginação na educação “é essencial certa determinação implacável” do professor em direção ao novo – Whitehead.

Brewster Ghiselin (1952) – Poeta

Ghiselin [7]   [5] aponta “criatividade como o processo de mudança, desenvolvimento, evolução na organização da vida subjetiva”.

 

Carl Ransom Rogers (1959) – Psicólogo e Humanista.

Para o humanista Rogers  [ 4 ] o sujeito criativo é aquele que conseguiu a autorrealização. Existindo condições adequadas para a liberdade de expressão, a tendência à autorrealização apareceria em toda sua potência. Rogers também é o precursor da psicologia humanista e da abordagem centrada na pessoa.

Rhodes Mel (1961) – Psicólogo.

Rhodes Mel [5, 8] considera correta a definição de criatividade que apresenta quatro aspectos: a pessoa que cria – valores, hábitos, atitudes e temperamento; os processos mentais que o ato criativo requer – motivação, percepção, aprendizado, pensamento e comunicação; as influências ambientais e culturais; os frutos da criação – teorias, produtos e invenções, artes.

Sara C. Mednick – Profa. Psicologia.

Mednick [9] trata a “criatividade como a formação de elementos associativos em novas combinações de modo a satisfazer as exigências ou são úteis de alguma forma”.

 

Edmundo Sinnot (1962) – Biólogo.

Edmundo Sinnot [4], estudioso da criatividade biológica, observava que a vida é criativa por si mesma. Ao se auto-organizar, se autorregula e produz novidades num processo contínuo. Para ele, na evolução física as alterações ocorrem devido a modificações genéticas. O homem, dada a necessidade de impor sentido e ordem às experiências vividas, encontra na capacidade organizadora a criatividade humana.

Arthur Kostler (1964) – Jornalista, Escritor e Ativista Político

Kostler [5] em sua Teoria da Natureza da Criatividade, mostra que toda atividade criadora implica em uma estrutura de hábitos ordenados de pensamento e comportamento, que dão coerência e estabilidade, mas não deixam lugar para a inovação. O ato criador estabelece conexões entre dimensões de experiências que não haviam sido relacionadas anteriormente. Trata-se de um ato de libertação da rotina e do hábito pela originalidade. Na ciência, exemplifica, o ato de criação nasce do encontro de duas matrizes de pensamento até então desprovidas de relação. A descoberta de novas relações permite o alcance de um nível mais alto de evolução mental.

 

Kostler (1971)

Kostler [5] afirma que “a inércia do espírito humano e sua resistência frente às inovações não encontram sua expressão mais clara nas massas incultas (como caberia esperar), já que estas se deixam influir facilmente, quando se as aborda de forma adequada, mas sim nos especialistas, com sua pretensão de serem defensores da tradição e possuidores exclusivos de todo o saber”. Toda inovação significa uma dupla ameaça às mediocridades acadêmicas. “Ameaça, por um lado, sua autoridade de oráculos e, por outro, desperta um medo, profundamente arraigado de ver destruído todo o edifício intelectual construído com tanta fadiga”.

Rollo May (1975) – Psicólogo Existencialista.

Rollo May [4] define criatividade como o encontro intenso com uma ideia, uma imersão total em alguma coisa ao redor ou com um pensamento. Nesse processo estão presentes componentes físicos e psicológicos que não podem ser confundidos com a ansiedade ou medo. Esses componentes advêm da intensa concentração do processo de criar, altamente emotivo que decorre da experiência da autorrealização das nossas potencialidades.

Alex Osborn (1975) – Banqueiro e Publicitário. 

Alex Osborn [10] define a associação de ideias como o fenômeno em virtude do qual a imaginação se entrosa com a memória, fazendo com que um pensamento conduza a outro. Assim, é o movimento do pensamento que sai em busca e encontra ideias, que por sua vez, produzem mais movimento e assim prossegue ininterruptamente.

George F. Kneller (1978) – Filosofo da Educação – Ciências Sociais

Kneller [5]  pressupõe que toda definição de criatividade deve contemplar o aspecto essencial da novidade. Na maioria das vezes, a novidade causa ceticismo ou até riscos de vida como os enfrentados por Copérnico, Galileu, Darwin, Thomas Edison nas descobertas e invenções que fizeram.

 

Michael Focault (1981) – Filósofo, Psicólogo e Pensador.

Focault [4] expôs como o cidadão diferente era isolado do convívio da sociedade. Na antiguidade a criatividade estava ligada a formas de loucura. A aparente espontaneidade e irracionalidade eram entendidas como resultante de acessos de loucura, reafirmados devido aos atos tidos como anormais dos criativos, cujo comportamento diferenciava-se das maneiras habituais de portar-se. As pessoas de ideias eram tratadas como diferentes por possuir esse raro dom.

Abraham Maslow (1983) – Psicólogo.

 Na pirâmide de motivações criada na década de 60 pelo humanista Abraham Maslow [11], o quinto nível é o mais elevado e trata da autorrealização. Maslow mostra que a criação se manifesta nesse nível, amplia o valor da personalidade, a autoestima, o interesse pela vida e a presença no mundo. Nesse aspecto, criatividade é sinônimo de plenitude e felicidade, uma vez que as criações são as prolongações dos autores através do tempo e do âmbito da criação.

Philip E. Vernon (1989) – Psicólogo.

Para Vernon [10] “criatividade denota a capacidade de uma pessoa para produzir ideias, conceber invenções ou produtos artísticos novos ou originais, que são aceitos pelos especialistas como tendo valores científicos, estéticos, sociais ou técnicos”.  Embora tenha a tendência a se alterar com o passar do tempo, Vernon sugere que a aceitabilidade ou adequação deve ser incorporada à definição.

Mauro Rodrigues Estrada (1992) – Sacerdote, Psicólogo, Linguista e Pensador.

Estrada [11] define criatividade como “a capacidade de produzir coisas novas e valiosas”. A criatividade é o motor do crescimento pessoal e a base do progresso e de toda cultura, afirma. O conceito de criatividade é compreendido do ponto de vista do autor das ideias havendo 3 níveis de concepção: o nível primário de importância pessoal ou familiar, o nível intermediário ou de ressonância profissional, e o nível transcendental que eleva o criador. “Os dois primeiros níveis são acessíveis às pessoas normais e o nível elevado pode ser alcançado com um treinamento sério em criatividade”. “Tudo que se pode fazer rotineiramente, pode-se fazer criativamente, mas depende de atitude diante de qualquer situação e aspecto da vida”, afirma Estrada.

Estrada reflete sobre a relação entre criatividade e o hábito, os quais, parecem se apresentar diametralmente opostos:

  • o hábito é repetição, enquanto a criatividade é mudança.
  • o hábito é o conhecido enquanto a criatividade é o desconhecido.
  • o hábito é a segurança enquanto a criatividade é o risco.
  • o hábito é o fácil enquanto a criatividade é o difícil.
  • o hábito é a inércia enquanto a criatividade é o esforço.

Estrada reflete na eliminação de um deles, do hábito ou da criatividade, concluindo no paradoxo que para ser criativo é preciso haver uma rotina. “Precisamos saber eliminar dos hábitos as ações rotineiras, mecanizando-as ou automatizando-as, para sobrar energias para a criação que desejarmos”. A história mostra que os lideres são os que cultivam as rotinas em função do medo de pensar.

Howard Gardner (1993) – Neuropsicólogo.

Howard Gardner [12] apresenta o resultado de suas pesquisas sobre o tema da criatividade. Outros pesquisadores enfatizam aspectos que Gardner coincide, mas apresenta diferenças sutis contidas em algumas frases que ele resume em três itens:

1- “Meu enfoque incide com a mesma intensidade sobre resolução de problemas, a descoberta de problemas e a criação de produtos tais como teorias científicas, obras de arte ou a fundação de instituições”.

2- “Enfatizo que todo trabalho criativo ocorre em um ou mais campos. Os indivíduos não são criativos (ou são “não criativos”) em geral; eles são criativos em campos especiais de realização, e é necessário que adquiram especialização nesses campos antes de poderem executar trabalhos criativos importantes”.

3- “Nenhuma pessoa, ato ou produto é criativo ou “não criativo” em si mesmo. Julgamentos de criatividade são inerentes à comunidade, dependendo fortemente de indivíduos especializados em determinado campo”.

Gardner objetiva mudar a atenção da criatividade de questões como “quem e o que é” criativo para questões do tipo “onde há criatividade”. Em seus estudos anteriores, Gardner postulou um conjunto de sete inteligências diferentes possuídas pelos seres humanos, cuja diferença entre pessoas está na força e configuração dessas inteligências. Nessa visão um indivíduo criativo é marcado por uma configuração incomum de talentos e uma falta inicial de adaptação entre capacidades, os campos que o indivíduo procura operar e as preferências e preconceitos da área atual. Assim, Gardner estudou sete criadores contemporâneos, revolucionários (e não apenas evolucionários) da era moderna, cada um reconhecido publicamente e caracterizado por pelo menos uma das sete inteligências postuladas por ele.

Sigmundo Freud – inteligência intrapessoal.

Albert Einstein – inteligência lógica – matemática.

Pablo Picasso – inteligência espacial.

Igor Stravinsky – inteligência musical.

T.S. Eliot – inteligência linguística.

Martha Graham – inteligência corpórea – sinestésica.

Mahatma Gandhi – inteligência interpessoal.

As conclusões da análise de Gardner foram:

1- Do ponto de vista da cognição, concluiu que os criativos caracterizam-se por uma combinação singular de inteligências tanto quanto por uma única inteligência extraordinária.

2- Do ponto de vista de outras dimensões psicológicas, Gardner notou uma inconfundível marginalidade dos indivíduos criativos. Seja por sexo, religião ou local de nascimento, a marginalidade estava lá desde o começo. Também notou a capacidade de ignorar convenções, de ir diretamente ao cerne da questão, de seguir um indicio até o fim e de continuar a fazer perguntas que estavam esquecidas pelos demais.

3- No item relativo à área do conhecimento, Gardner identificou cinco espécies diferentes de atividade criativa, cujas dimensões apresentam-se distintas. Duas são de ordem cientifica: solução de um problema bem definido (Stravinsky) e concepção de teorias abrangentes (Einstein e Freud). Outras duas são de ordem artística: criação de uma “obra congelada” (caracterizada pela distancia entre o instante da criação e o instante da avaliação) e execução de um trabalho com ritual (Martha Graham). A quinta espécie é de caráter político: a execução é de alto risco (Gandhi).

Gardner encontrou ainda dois fatores que considerou inesperados em sua pesquisa:

– Sistemas cognitivos e afetivos de apoio. Na época que os personagens estudados se afastaram de convivências e se mantiveram muito sozinhos também foi a época que mais precisaram de apoio forte de outros indivíduos e encontraram.

– Pacto Fáustico. Os criadores escolhidos por Gardner foram capazes de fazer pactos consigo mesmo e com pessoas radicais ao redor. Eram de natureza ascética, celibatária, renúncia à vida familiar, exigência extrema consigo mesmo ou de caráter francamente explorador. Em todos os casos, porém, os pactos eram feitos para que o criador tivesse a melhor oportunidade e pudesse continuar o trabalho em seu domínio. Os esforços parecem terem sido recompensados.

Edward De Bono (1994) – Médico e Especialista em Criatividade.

Sob o aspecto da seriedade da criatividade De Bono[13] atem-se aos aspectos necessários a ampliação de percepções que conduzam a reavaliações de conceitos. “Prefiro examinar diretamente o comportamento de sistemas de informação auto-organizáveis, os quais criam os padrões que usam. Podemos ter uma ideia muito clara da natureza da criatividade, analisando o comportamento desses sistemas”, afirma. Com essa abordagem, De Bono desfaz a mística da criatividade como se fosse inspiração divina ou dom de uns poucos privilegiados e talentosos e traz a tona o nexo da criação. Esses conceitos levaram-no a discorrer para 1200 Ph.D’s do departamento de pesquisa da empresa 3M, composto por engenheiros, físicos, químicos e outros profissionais de ciências exatas. Esses profissionais tendem a acreditar criatividade é própria para publicitários, designers, artistas das diversas artes, mas não lhes serve em função das “medições, fórmulas, cálculos e leis exatas de que dispõe e estão submetidos”. A palestra, no entanto veio a causar impacto, levando-os a considerar o nexo da criatividade como “o lógico presente nos sistemas auto-organizáveis” com os quais trabalham. Conhecer a lógica da criatividade, desperta e motiva o profissional e o pesquisador para a necessidade de aprender a desenvolver sua própria capacidade criativa de modo sério e maduro.

John Kao (1997) – Filósofo, consultor e especialista em inovação.

Kao[14] tem a criatividade como o processo através do qual as ideias são geradas, desenvolvidas e transformadas em valor. Na definição de John Kao, criatividade inclui o significado de inovação e empreendedorismo. Para ele, a criatividade constitui-se da arte de lançar novas ideias e a disciplina de moldar e desenvolver essas ideias ao estágio de valor realizado.

Alvin Tofler (1998) – Escritor, futurista / visionário. 

Em 1998, quando esteve no Brasil, Alvin Tofler se referiu a Sociedade da Criatividade. Esta nova sociedade, onde o poder deslocou-se das mãos dos proprietários das empresas e da produção em grande escala, de bens materiais para a produção de bens imateriais, isto é, símbolos, valores, serviços, informações, projetos e design, estética, etc… passa a exigir cada vez mais, nos poucos postos de trabalho que ela irá criar, algo chamado inovação que depende da criatividade.

David N. Perkins (2001) – Dr. em Matemática e Inteligência Artificial.

Perkins[15] aborda a criatividade pelo aspecto da descoberta do problema. Para ele, o conceito de solução de problemas não serve adequadamente a criatividade. A solução pode ser simples se o problema for adequadamente formulado ou reformulado.

Ao redefinir os problemas foge-se das velhas soluções.  Existem inúmeras situações para comprovar que a descoberta do problema exige a contribuição da criatividade.

As pesquisas de Jacob Getzels e Mihaly Csikszentmihalyi na década de 70, ao trabalhar com estudantes de artes associou os resultados mais criativos com o nível de descoberta do problema pelo aluno. Anos depois os pesquisadores identificaram no mesmo grupo que aqueles que não estiveram envolvidos com descobertas de problemas, isto é, não reformularam o problema, apresentavam menor probabilidade de sucesso artístico na vida profissional. Perkins cita a pesquisa de Michael Moore, que utilizou a mesma metodologia na Geórgia Southern University com alunos escritores, chegando à mesma relação entre a descoberta do problema e a criatividade do texto.

Richard Florida (2002) – Especialista em geografia e crescimento econômico.

Richard Florida[16] apresenta em seu livro, A Ascensão da Classe Criativa, o nascimento de uma nova classe social, constituída pelos profissionais que dependem de sua capacidade de criar para manter seu trabalho.

A característica distintiva da classe criativa é que seus membros se engajam em
trabalhos cuja função é “criar novas formas significativas.” O núcleo super-criativo
desta nova classe inclui cientistas e engenheiros, professores universitários, poetas e romancistas, artistas, atores, designers e arquitetos bem como lideres de pensamento da sociedade moderna: escritores de não-ficção, editores, promotores de valores culturais, think tank-pesquisadores, analistas e outros formadores de opinião.

Os membros deste núcleo supercriativo produzem novas formas ou projetos que são facilmente transferíveis e de grande utilidade,  tais como projetar um produto que pode ser amplamente fabricado, vendido e usado; conceber um teorema ou uma estratégia que pode ser aplicado em muitos casos; compor música que pode ser executada continuamente.Alpha

Além desse grupo central, a classe criativa também inclui “profissionais criativos” que trabalham em uma ampla gama de indústrias intensivas em conhecimento, como setores de alta tecnologia, serviços financeiros, as profissões jurídicas e de saúde, e as empresas de administração. Essas pessoas se envolvem em solução criativa de problemas baseados em corpos complexos de conhecimento para resolver problemas específicos. Tipicamente, essa atividade requer um elevado grau de ensino formal e, assim, um elevado nível de capital humano. Pessoas que fazem este tipo de trabalho podem surgir exporadicamente com métodos ou produtos muito úteis, mas não é scopo básico do seu trabalho.

Regularmente são obrigados a pensar por conta própria, combinando formas unicas de abordagens padronizadas com situações que precisam de ajustes, exercem grande quantidade de avaliações e tentam algo radicalmente novo de vez em quando.

O mesmo acontece com um número crescente de técnicos e outros profissionais que empregam corpos complexos de conhecimento para trabalhar com materiais físicos. Em áreas como medicina e pesquisa científica, os técnicos estão assumindo maior responsabilidade para interpretar seu trabalho e tomar decisões, ofuscando a antiga distinção entre chefes e seguidores. Eles adquirem seu próprio corpo específico de conhecimento e maneiras proprias de desenvolver e realizar seus trabalhos.

Outro exemplo é a secretária que agora assume uma série de tarefas, realizadas no passado por grandes equipes. A secretária tornou-se um gestor de fluxo de informações, elaboração e criação de sistemas que exigem tomada de decisões que agreguem valor criativo.

Onde quer que olhemos, criatividade está cada vez mais valorizada. Empresas e organizações valorizam os resultados que podem alcançar e individuos vêem a criatividade como um caminho para a auto-expressão e satisfação no trabalho.
Conclusão: Como a criatividade torna-se mais valorizada, a classe criativa cresce.

CGEE [17] – Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (2008).

O CGEE, através de seu glossário define criatividade como um meio de ampliar a habilidade de visualizar futuros alternativos. Alguns métodos contribuem para aprimorar esta característica naqueles que trabalham com prospecção ou gestão de tecnologia. Alguns métodos usados para ampliar a criatividade sejam de forma individual ou coletiva, podem ser usados na prospecção, possibilitando a identificação de futuros alternativos.

EU – União Europeia (2009) – Comissão das COMUNIDADES EUROPEIAS –

Ano Europeu da Criatividade e Inovação.

A Exposição de Motivos [18] apresentada pela Comissão das Comunidades Europeias que organizou o Ano Europeu da Criatividade e Inovação em 2009, define: A criatividade é uma característica humana que se manifesta numa grande diversidade de áreas e contextos: arte, design e artesanato, progresso científico e empreendedorismo, incluindo no plano social. O caráter pluridimensional da criatividade significa que o conhecimento numa ampla variedade de domínios – tecnológicos e não tecnológicos – pode constituir a base da criatividade e inovação.

A inovação consiste na concretização bem sucedida de novas de ideias; a criatividade é a condição “sine qua non” da inovação.

A emergência de novos produtos, serviços, processos, estratégias e organizações exige a produção de novas ideias e a associação dessas ideias. Certas competências como o pensamento criativo e a resolução avançada de problemas são tão essenciais nos domínios econômicos e sociais quanto nos domínios artísticos.

 

Endereços eletrônicos usados no texto.

 


[1] Von Oech, Roger. Espere o Inesperado (ou você não o encontrará): uma ferramenta de criatividade baseada na ancestral sabedoria de Heráclito. Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, RJ. 2003. Pág. 11 até 25.

[2] Epigrama, em seu sentido atual, significa um dito lapidar, espirituoso e muitas vezes paradoxal.

[3] Este epigrama também é conhecido por “o conflito é o pai de todas as coisas”.

[4] Wechsler, Solange Muglia. Criatividade – Descobrindo e Encorajando. Edit. Psy. Campinas, SP. 1998.

[5] Kneller, George F. Arte e Ciência da Criatividade. Edit. Ibrasa. São Paulo. SP. 1978.

[6] AZAMBUJA, Thais de. Uma oficina de criação para a Terceira Idade. Textos Envelhecimento,  Rio de Janeiro,  v. 8,  n. 2,   2005 .   Disponível em <http://revista.unati.uerj.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-59282005000200007&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  08  jun.  2012.

[7] Ghiselin, Brewster. The Creative Process. University of California Press, Berkeley, Calif. 1952. Page 2.

[8] Mel, Rhodes. An Analysis of Creativity. Phi Delta Kappan. 1961. Pag. 307.

[9] Boden, Margaret A. Dimensões da Criatividade. Editora Artes Médicas Sul, Porto Alegre, RS. 1999. Organizadora. Eysenck, Hans. Capitulo 8. As Formas de Medir a Criatividade. Pág. 204.

[10] Osborn, Alex F. O Poder Criador da Mente – Princípios e Processos do Pensamento Criador e do Brainstorming. São Paulo, Editora Ibrasa, 4º edição, 1975. Pág. 98 – 101

[11] Rodríguez Estrada, Mauro. Manual de Criatividade: os processos psíquicos e o desenvolvimento. Edit. Ibrasa. São Paulo, SP. 1992.

[12] Howard Gardner comenta em nota desse livro organizado por Margaret Boden (pág. 162), que o artigo apresentado no sexto capítulo Os Padrões dos Criadores, resume alguns dos principais temas de seu livro Os Criadores da Era Moderna, Edit. Basic Books, New York, 1993.

[13] De Bono, Edward. Criatividade Levada a Sério: como gerar ideias produtivas através do pensamento lateral. Edit. Pioneira, São Paulo, SP. 1994.

[14] Kao, John J. Jamming: a arte e a disciplina da criatividade na empresa. Edit. Campus. Rio de Janeiro, RJ. 1997. Pág. xviii

[15] Perkins, David N. A Banheira de Arquimedes. Como os grandes artistas e cientistas usaram a criatividade, e como você pode desenvolver a sua. Editora Ediouro. Rio de Janeiro, RJ. 2001. Pág. 172.

[16] Informações disponíveis em < http://www.washingtonmonthly.com/features/2001/0205.florida.html >. Acessado em 2002.

[18] Exposição de Motivos – Ano Europeu da Criatividade e Inovação (2009). Comissão das Comunidades Europeias. Bruxelas, 28.3.2008. Proposta de Decisão do Parlamento Europeu e do Conselho